A um ano da África — por Marcos Caetano*

Estamos a um ano da primeira copa do mundo no continente africano. Hora de refletir sobre o que podemos esperar do mundial, que certamente será diferente de todos os anteriores – e por diversas razões, que vão desde a dinâmica do evento até o estilo de jogo da Seleção Brasileira. Pelo que tenho observado até aqui, não seria inadequado dizer que a Copa da África, tem tudo para ser uma áfrica. Sim. Porque com inicial maiúscula, África é o nome do continente africano. Já com inicial minúscula, áfrica é um substantivo feminino, sinônimo de façanha ou proeza. Qualquer que seja o ângulo de análise, a Copa de 2010 tem tudo para ser tratada como uma proeza.

Comecemos pelas dificuldades geopolíticas, pois a República da África do Sul, por todo o contexto histórico no qual se desenvolveu, está longe de ser um país trivial. Para princípio de conversa, ela possui três capitais: Pretória, capital executiva; Cidade do Cabo, legislativa; e Bloemfontein, judiciária. E tem nada menos do que onze idiomas oficiais reconhecidos pela constituição – sendo que o inglês é apenas a quinta língua mais falada. Ao norte, o país faz fronteira com Namíbia, Botsuana e Zimbábue, ao leste, com Moçambique e Suazilândia, nações que não são exatamente paradigmas de estabilidade política e econômica. Complicando ainda mais a geografia do país, há o Reino do Lesoto, um enclave independente, cercado por todos os lados pelo território sul-africano. Tudo isso sem falar no complexo caldo de religiões e etnias, em delicado equilíbrio desde que o país começou a desmontar o terrível regime do Apartheid, no início dos anos 90.

Fora a Cidade do Cabo, bastante aprazível, as demais cidades sul-africanas variam entre o gigantismo e a complexidade de Johannesburgo e a precariedade das cidades menores. Infraestrutura, aliás, é a maior das preocupações do Comitê Organizador da Copa do Mundo. Muita gente aposta que os quesitos transporte público, hospedagem e segurança serão os calcanhares de Aquiles do próximo mundial. Esses itens serão colocados à prova de estresse na Copa das Confederações, espécie de vestibular para 2010, que começa a ser disputada neste domingo. Até o clima parece ser um fator de desconforto. Desde 1978, na Argentina, que uma copa não era disputada no frio. E junho, no país mais ao sul da África, faz bastante frio.

Além da façanha de organização exigida para o mundial, temos ainda a proposta tática da Seleção Brasileira, que, pela primeira vez em muitos anos, senão em toda a história, deverá jogar de contra-ataque. Dunga não é um revolucionário tático, mas seria injusto não creditar a ele a ousadia – ou seria a falta dela? – de colocar uma seleção grandiosa para jogar mais atrás, partindo em velocidade e liquidando os jogos mais críticos com a qualidade de seus homens de frente. Para o bem ou para o mal, Dunga fez o que sempre pareceu um desrespeito para os que estão acostumados com um Brasil que imprensa seus adversários e toca a bola até gastá-la (ou gastar a paciência dos torcedores). Foi assim que vencemos os alguns dos jogos mais difíceis, como o que nos credenciou à Copa das Confederações: a final da Copa América de 2007, diante da Argentina.

Nunca defenderei que essa deva ser a tática da Seleção Brasileira em todos os jogos. Somos um time de ponta, que precisa fazer valer sua hierarquia sobre os adversários. Mas não se pode negar que em alguns jogos, fora de casa ou contra seleções fortes, a tática do contragolpe pode eventualmente ser usada. A tetracampeã Itália que o diga. Entretanto, ver nosso time jogar assim numa copa será, para o torcedor brasileiro, a maior das áfricas.

*Homem multimídia: colunista de esportes do Jornal do Brasil, O Estado de São Paulo, do site No Mínimo e das revistas O2 e Invicto. Colabora com as revistas Trip, Bravo e Piauí e já foi articulista de O Pasquim 21 e do portal Terra.
Somente nos canais ESPN, deixa de lado a palavra escrita para dedicar-se às palavras faladas.

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Uma resposta to “A um ano da África — por Marcos Caetano*”

  1. Thiago Pereira Says:

    Belo texto do Caetano!

    Fiz questão de colocar!

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